Transição do mundo VUCA para o mundo BANI e o impacta disso nas nossas vidas

- por Security

1 de Setembro de 2021

Renata De Luca, Chief Human Resources Officer (CHRO) da Security

Eu ainda tentava entender o mundo VUCA, quando soube que não estávamos vivendo mais nele. Aquele mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo.

O que é Mundo VUCA?

VUCA é o acrônimo de Volatility, Uncertainly, Complexity and Ambiguity (Volátil, Instável, Complexo e Ambíguo): termo empregado pelo U.S Army War College para explicar as características no mundo pós-guerra fria, tão falado nos encontros de RH para descrever os desafios do mundo corporativo.
Agora, devemos concentrar nossos esforços para compreender e viver no mundo BANI: frágil, ansioso, não linear e incompreensível (brittle, anxious, nonlinear e incomprehensible).

Impactos da pandemia

O acrônimo, cunhado pelo antropólogo americano Jamais Cascio, nomeia o mundo pós-pandemia do coronavírus e aponta para novas competências necessárias para vivermos melhor neste ambiente.
As mudanças políticas e climáticas somam-se aos efeitos desastrosos provocados pela atual pandemia que virou o mundo de ponta cabeça, provocando efeitos desnorteados que aumentam o estresse e abarrotam os consultórios dos profissionais de saúde mental.
Enquanto tentávamos acompanhar a velocidade tecnológica, nos situar nos negócios disruptivos, preparar as gerações para novas profissões e viver bem neste mundo desigual, um vírus provocou convulsões e mudou o rumo das prioridades, puxando o freio de mão da humanidade.
A fragilidade foi demonstrada porque vidas se foram antes da hora, negócios ruíram e certezas minaram. Repentinamente, o homem se sentiu ameaçado e teve que buscar proteção, lidando com uma insegurança brutal.


A Globalização

A tão admirada globalização mostrou um lado sombrio: não existem fronteiras para o mal e o que acontece em um lugar influenciará no outro. Um país que não tem cuidados ambientais afetará o clima do mundo; lugares muito pobres produzirão doenças; instabilidade política trará refugiados; vacinar desigualmente dará espaço às mutações dos vírus. E por aí vai...
As necessidades básicas humanas ficam ameaçadas quando vemos o estrago que chuvas fortes ou altas temperaturas causaram recentemente em países desenvolvidos, que possuem políticas de preservação do clima, mas estão no mesmo planeta que outros que não os tem. No mundo BANI, um sistema é frágil e pode quebrar.

Transição para o mundo BANI

Evidentemente, a instabilidade e a falta de controle produzem aumento da ansiedade. O crescimento nas vendas de psicotrópicos não deixam dúvidas que o sofrimento psíquico cresceu. De acordo com o CFF (Conselho Federal de Farmácia), a partir de dados da consultoria IQVIA, a venda destes medicamentos aumentou 20% em 2020 se comparada ao ano anterior. Não há dados de aumento de doenças mentais, mas sim de sofrimento emocional e a busca por remédios são para aliviar sintomas provocados pelo isolamento social, mudanças de hábitos, perdas e stress. Buscar o equilíbrio emocional não é tarefa fácil no mundo BANI.
A não linearidade é fruto da falta de conexão direta entre causa e efeito e é mais difícil de ser compreendida justamente porque raciocinamos assim, acreditando que causa e consequência possuem uma relação sequencial. Mas no mundo BANI os problemas são complexos, não possuem soluções únicas e exigem pensamento sistêmico. Questões como aumento do desemprego, crise dos refugiados, desigualdade social, terrorismo, discriminação, alterações climáticas, entre outras, são impossíveis de serem enquadradas em um raciocínio linear, pois um grande número de agentes interfere nos sistemas complexos e um raciocínio mecanicista não é capaz de solucioná-los. O ambiente sistêmico precisa de cooperação e o entrave é justamente o individualismo, tão presente nestes tempos. No Brasil, a polaridade política é um exemplo de fracasso deste tipo de pensamento, que infantiliza a população, joga poeira nos olhos e afasta da solução de problemas realmente sérios. O mundo BANI desequilibra raciocínios lineares.
A sobrecarga de informações torna o mundo mais incompreensível. Nunca tivemos tanta facilidade em obter dados, em transitar com velocidade por diversos canais e com tanto acesso aos recursos tecnológicos. Ao mesmo tempo em que é maravilhosa, a sobrecarga de informações produz incompreensibilidade porque é infinita, além de tornar difícil filtrar, selecionar, distinguir e processar. Pensar exige pausa e diante de um turbilhão de informações corremos o risco de repetição automática. Quando o mundo era restrito ao espaço em que se vivia, as certezas eram maiores. Conhecer é algo infinito e quanto mais sabemos, mais descobrimos o quão pequena é nossa fatia no universo. O mundo BANI abala o narcisismo dos homens.


Como se preparar para o novo mundo?

Se o mundo atual é frágil, ansioso, não linear e incompreensível, quais serão as competências valorizadas para se dar melhor nele? De acordo com a consultoria Mercer são o autogerenciamento, a colaboração e a adaptabilidade. Ainda é cedo para certezas, mas tudo indica que saber se administrar sozinho, olhar em volta e se aclimar com facilidade fará diferença daqui para frente, pelo menos até a próxima transformação.
O autogerenciamento já pode ser medido com o aumento das atividades em home office, que focou a produtividade em detrimento da presença física. Outra discussão atual que valoriza esta competência é o papel do líder, que deixou de ser o chefe que geria na base do comando/controle e passou a ser mais parecido com o do maestro de uma orquestra: dá a direção, acompanha, intervêm se necessário, puxa para o coletivo e desperta o melhor das pessoas. Saber se autogerenciar sem ficar esperando as ordens de um chefe é uma competência atualmente importante.
A colaboração já estava valorizada na chamada para o trabalho em equipe. Mas agora deixa de ser uma recomendação e passa a ser uma competência extremamente reconhecida. A escola terá que ensinar a trabalhar mais em grupo, as comunidades a valorizarem a diversidade, as famílias a cultivar experiências que levem ao convívio “fora da bolha”; pois colaboração será a palavra da vez, não bastará mais ser especialista no que se faz, mas produzir em rede e olhar o próximo.
A rápida adaptabilidade também será mandatória no mundo BANI. Quanto mais rígido, mais sofrível será. Mudanças serão constantes e ganhará quem conseguir se adaptar bem a elas: aceitar novos modelos de negócio, conviver bem com a diversidade, extrair benefícios da tecnologia, conhecer novas culturas, dominar outras línguas, ter experiências diversas... serão vantagens competitivas.
O mundo está em constante evolução, apesar de cairmos sempre nos mesmos “buracos”: pandemias, guerras, intolerâncias, extremismos, luta pelo poder sempre fizeram parte da história da humanidade, mas temos que acompanhar para viver bem no tempo em que estamos inseridos.

 

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